Há uma infinidade de textos espalhados pela internet explicando sobre o que se trata o veganismo. Decidi ir por um caminho diferente neste espaço e falar sobre do que o veganismo NÃO trata, apesar de ter impactos importantes e desdobramentos relevantes.

Veganismo não é sobre meio ambiente.

Apesar disso, não há como ignorar os impactos da pecuária extensiva na devastação dos ecossistemas em todo mundo. A pecuária é responsável por 15% do total das emissões de gases de efeito estufa, superando até mesmo as emissões causadas pelo transporte. 75% das terras agricultáveis do planeta são usadas para pastagem e produção de ração para a pecuária e, muitas delas, são resultado de desmatamento de florestas e destruição de ecossistemas.

No Brasil, segundo a ONU, mais de 80% do desmatamento entre 1990 e 2005 foi provocado para consumo de carne. Os dados sobre o impacto da pecuária extensiva em todo mundo são claros, e está claro que a redução e o eventual fim da criação de animais para a alimentação humana seria um bálsamo em um mundo tão degradado pelo homem. Mas não é sobre isso que o veganismo trata.

Há pessoas que aderem ao veganismo estrito por motivos de saúde, porque considerarem que serão mais saudáveis se deixarem de consumir animais mortos e/ou frutos da exploração animal como leite, ovos e mel. Em uma coisa elas estão certas: há dezenas de estudos que embasam os benefícios de uma dieta vegana para a saúde humana. Ela reduz os níveis de colesterol do sangue, ajuda a controlar a pressão arterial, reduz o risco de diabetes, reduz o risco de câncer de vários tipos, protege pessoas com artrite, colabora com a perda de peso, só para exemplificar. Com uma dieta balanceada e com acompanhamento nutricional, o veganismo é um aliado na melhoria da qualidade de vida e na prevenção de doenças.

Mas não é sobre a saúde humana que o veganismo trata. Veganismo não é sobre dietas ou alimentação.

Outra posição possível sobre o tema versa sobre a luta contra o modo de produção capitalista. A chef vegana e ativista Sandra Guimarães diz que “é uma contradição se dizer vegana, ou seja, se posicionar como alguém que luta contra a exploração animal, e ao mesmo tempo defender o capitalismo e o colonialismo, sistemas que apoiam e se beneficiam imensamente da exploração animal”.

Ela tem razão. O sistema de produção capitalista mercantilizou animais, os tornou objetos de mercado e ainda criou um sistema de exploração do trabalho atroz para quem atua na “indústria da carne”. O setor lidera o ranking de acidentes de trabalho no ramo alimentício do país, com uma média de 54 ocorrências por dia, o número de afastamentos de trabalhadores é impressionantemente alto, e ainda há um grande índice de adoecimento mental por parte de quem trabalha diretamente no abate e “processamento de animais”. A luta vegana se enfileira com a luta pelos direitos dos trabalhadores do campo e da cidade, por melhores condições de trabalho e pelo fim de todas as formas de exploração, seja de animais humanos ou não-humanos.

Mas, intimamente, o veganismo não é sobre isso.

Porque o veganismo não é sobre nós.

É sobre eles.

A mais antiga definição sobre veganismo segue a mais atual. Segundo a The Vegan Society, da Inglaterra, mais antiga entidade sobre o tema do mundo, o veganismo é “uma forma de viver que busca excluir, na medida do possível e do praticável, todas as formas de exploração e de crueldade contra animais, seja para a alimentação, para o vestuário ou para qualquer outra finalidade”.

É isso. O veganismo é essencialmente uma ideologia que coloca os animais não-humanos em outro lugar no nosso ordenamento ético: por serem sencientes, ou seja, por terem  capacidade de sentir, de vivenciar sentimentos como dor, angústia, solidão, amor, alegria, raiva, animais eles merecem igual consideração de interesses. Eles desejam evitar a dor, o sofrimento e desejam viver e é sobre este direito que o veganismo trata.

Isso não diminui, entretanto, a importância de todos os outros fatores inerentes a este estilo de vida: ser vegano impacta diretamente na preservação do meio ambiente, na prevenção de doenças e melhoria de qualidade de vida e representa um ataque frontal ao sistema de produção capitalista que oprime animais e trabalhadores. Ignorar que estes são motivos importantes para ser vegano é contraproducente, mas igualmente contraproducente pensar que estes motivos são mais importantes do que o cerne do veganismo: é sobre eles, não sobre nós, ainda que a gente receba muita coisa em troca desta dedicação.

E por eles, a gente luta.