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Manchas de petróleo atingiram o território do Parque Nacional de Abrolhos no último sábado (2). Embora as concentrações encontradas sejam pequenas, a possibilidade de contaminação dos organismos que vivem na área preocupa os especialistas e pode agravar ainda mais o desastre ambiental.

Pequenos fragmentos de óleo foram encontrados na praia norte da Ilha de Santa Bárbara, uma das cinco que compõem o Arquipélago de Abrolhos. “São pequenas do tamanho de uma moeda”, afirmou à Folha o comandante do 2º Distrito Naval, o vice-almirante Silva Lima.

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Entretanto, a localização das manchas, mesmo em pequenas quantidades, preocupa os especialistas, que já vêm temendo a contaminação do Parque de Abrolhos desde o início do derramamento. O ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade), responsável pela reserva, suspendeu a visitação ao local por três dias, no domingo. A medida busca preservar a saúde dos possíveis visitantes e garantir o cuidado com o local, e pode ser prorrogada a depender da situação futura. O ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, disse, também à Folha, ser impossível prever o que vai acontecer nos próximos dias: “É um óleo difícil, que vem a meia água. O radar não pega, o sonar não pega, o satélite não pega. A gente tem uma visualização dele quando chega na água. É difícil, a gente não tem uma bola de cristal”.

A contaminação de Abrolhos pode ser trágica e irreversível. O parque, criado em 1983 pelo governo federal, é a primeira unidade de conservação marinha do Brasil, e abrange 87.943 hectares, incluindo ilhas do arquipélago. O local abriga mais de 1300 espécies registradas de fauna e flora, e, além de ser região de reprodução para baleias jubarte, apresenta corais únicos no mundo, essenciais para a cadeia alimentar marinha. Além disso, o local abrange grandes rios que formam manguezais, como o da Reserva Extrativista de Cassurubá, com mais de 10 mil hectares.

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A pesquisadora Zelinda Leão, do Instituto de Geociências da Universidade Federal da Bahia (UFBA), que estuda os corais da região desde a década de 70, disse ao G1, antes do registro das manchas, que a chegada do petróleo a Abrolhos seria a pior coisa que poderia acontecer no cenário do derramamento. “Toda essa riqueza, essa diversidade, só existe por causa dos corais. Alguns ali são únicos no mundo, têm muitas características particulares, que chamam a atenção desde 1832, quando Charles Darwin esteve em Abrolhos”, afirmou. Segundo Zelinda, os corais já estão fragilizados pois se recuperam de um período de branqueamento, quando as microalgas que habitam a superfície dos corais deixam esses organismos devido a um aumento excessivo na temperatura da água.

Caso os corais sejam contaminados, o prejuízo se estenderia para toda a cadeia alimentar do ecossistema, já que esses organismos são a base dela. Erico Marcovaldi, coordenador de comunicação do Instituto Baleia Jubarte, que atua na preservação da região, declarou ao G1 que, nesse caso, as baleias também seriam prejudicadas. Contudo, este ano a temporada de reprodução ocorreu mais cedo, e as baleias já estão se retirando da região de Abrolhos: “Em Abrolhos ainda tem baleias, mas felizmente poucas e já se afastando, diminuindo o risco de serem pegas pelo óleo, especialmente os filhotes. Estamos com pessoal monitorando esse óleo maldito, no mar e em terra, inclusive junto com outras ONGs que atuam na região”.

Não há como prever se o óleo atingirá de fato a região de Abrolhos, mas o material se aproxima e o movimento em direção ao sul da Bahia é favorecido pelas correntes marítimas. Caso aconteça, o desastre será irremediável. “Seria um desastre imensurável. Não só para o Brasil, mas para toda a vida marinha do Atlântico Sul, é uma perda incalculável. Tem que existir alguma forma de sugar, de filtrar esse óleo. Isso não pode pegar nos corais de jeito nenhum”, observou Zelinda.

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